Mércia Moura, protagonista de uma trajetória de sucesso e mudança de vidas

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Publicado em 24/03/2025 às 7:00
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Aos 27 anos, Mércia Moura morava em uma fazenda chamada Pangauá, em Itambé, no interior de Pernambuco, onde vive até hoje. Mãe de três filhos, Paulo Gustavo, Filipe e Marisa, conciliava as atividades da maternidade e da casa. Na terra, via o cultivo da cana de açúcar, desempenhado pelo marido Paulo Moura. No coração, o que ela cultivava era um sonho de uma vida além daquela.

Um sonho de empreender e aprimorar o conhecimento do mundo da moda, o qual sempre teve muito afinco. Com o apoio da mãe, das trabalhadoras da fazenda e sua própria coragem, iniciou uma confecção com menos de cinco máquinas de costura usadas, compradas com o dinheiro da venda de galinhas. Quarenta anos depois, ela olharia para trás com a certeza de que aquele sonho transformaria sua vida e a de centenas de famílias.

Sua marca, a Marie Mercié, alcançaria patamares internacionais, e a confecção, que começou em uma sala da casa grande da fazenda, se tornaria um império e uma referência dentro e fora do Brasil, trazendo um olhar para uma região que poucos conheciam. Em uma conversa com a nossa coluna, Mércia detalhou pontos fortes da sua vida e trajetória, marcos da sua marca e reflexões que permeiam a vida da mulher moderna como mãe, empresária, esposa e líder.

 

Como surgiu sua paixão pela moda?

Sempre gostei de estudar, de pesquisar, precisei ser antenada com o que acontece no mundo, porque a moda é exatamente o desejo do momento das mulheres, da pessoa do mundo. Minha família tem muitas costureiras, minha avó tinha confecções, minha tia fazia fardamentos de escola, cresci com esse DNA ao meu redor.

Cheguei a começar a faculdade de desenho industrial pela UFPE, com 18 anos, mas parei para o casamento, mas a minha paixão não parou. Só aquele momento para cuidar dos meus filhos da minha da minha casa e após 8 anos de casada, morando lá em Panguá, eu retomei.

Mas eu precisei de muita força e coragem para retomar, foi na prática e na coragem de tentar e de errar, estava inserida naquele momento num contexto patriarcalista de uma sociedade canavieira, machista, e o meu marido naquela época ele não acreditava que mulher pudesse trabalhar.

Como era sua vida no momento em decidiu ser empreendedora?

Eu fui criada para ser dona de casa, mas vivia inquieta dentro de uma fazenda. Muito parada. Percebia uma mão de obra ociosa que de mulheres que estavam vivendo muito próximo da linha da pobreza, apenas com maridos trabalhando, muitas vezes como cortador de cana. Sendo que eu não me conformava de ver aquilo e eu acreditava que aquelas mulheres poderiam sim mudar de vida, assim como eu poderia. A minha maior barreira na vida foi o machismo. O meu marido, hoje, aceita, o meu marido hoje ama. Mas sabe por que ele ama? Porque deu certo, porque eu mudei nossa região, nossa, minha e dele.

Houve algum incentivo para dar o primeiro passo?

Eu sempre soube que queria mudar minha vida e seguir minha vocação, porque sou eterna pesquisadora sobre comportamento humano, moda, e tudo o que envolve esse universo. Foi quando me dei conta de que a moda estava ali, esperando por mim. Na fazenda, cuidava dos meus filhos e, às vezes, costurava as roupas deles. Havia uma costureira chamada Nelita, que usava uma máquina de pedal, e eu passava muito tempo lá com ela e isso já me acendia.

Minha mãe foi uma grande inspiração para mim, sempre dizia: “Você tem tanto talento, por que não começa uma confecção?”. Eu criava galinhas e vendia na feira, mas aquilo não me preenchia, me sentia perdida e sabia que poderia fazer mais. Então, minha mãe sugeriu: “Vai aprender a costurar, vai na casa da sua tia em Timbaúba, ela faz fardamento para o Colégio das Freiras. Você vai aprender e depois ensina as meninas aqui”. Isso tudo na Fazenda onde eu morava, pois trabalhar fora não era uma opção dentro da minha realidade.

Onde está a fábrica da Marie Mercié?

A fábrica fica na fazenda, começou lá e assim segue até hoje, é uma forma de honrar o legado da Marie. Já recebi inúmeras propostas de mudar, inclusive para produção fora do país, na Ásia, mas se eu fizesse isso, não seria a marca. Também é uma forma de honrar meu sogro, que deu a Casa Grande da fazenda para eu começar a confecção, em um ato de muita confiança que daria certo, a única coisa que mudou foi o tamanho.

Graças a Deus, sempre está maior. Começamos com 3 máquinas, depois 5, hoje em dia, incontáveis, de muitos tipos e funções. Sempre prezando nosso diferencial, nosso bordado feito a mão, nosso crochê, nossas peças exclusivas e desenhadas e idealizadas por minha filha Marisa e por mim.

Qual foi o primeiro investimento da sua marca?

Não teve, não veio dinheiro de lugar nenhum. Nem de fazenda, nem de mãe, ninguém. Eu comecei com o dinheiro das minhas galinhas que eu criava e vendia e com cinco máquinas de costura, usadas, que minha mãe achou em Santa Cruz do Capibaribe e sugeriu que eu comprasse e também o crédito na praça para pagar com 30 dias e pagar em dia. Quando surgiu a oportunidade de expor nossas peças em uma feira do Sebrae, na Alemanha, meu marido não queria que eu fosse, mas minha mãe me apoiou e levou minhas peças. A partir dai, recebi uma encomenda grande, pode ter sido pequena para o comprador, mas pra mim, aquilo era um grande trabalho, em condições melhores para as meninas.

Como é ser um símbolo de pioneirismo?

Em 1986, a Marie foi a única do Nordeste a participar da feira de confecção na Alemanha, e neste ano, a única nordestina presente no Coterie Show, em Nova Iorque. Já tiveram muitas outras vezes, eu olho para trás penso: "Meu Deus, fomos nós que construímos tudo isso’’. Foi a Marie, fui eu junto com aquelas mulheres lá de Pangauá, porque sozinha a gente não vai a lugar nenhum.

Me dá uma honra. Hoje eu tenho 40 anos de Marie, quando eu chego na feira em Nova Iorque, e é nossa roupa que é escolhida para a vitrine principal da feira do evento, chego a chorar. Esse é um dos maiores eventos do mundo de moda para o comércio de atacado, de multimarcas. A Cotiere traz lojistas do mundo inteiro. E quando chega lá, a gente passa a ser a vitrine, o reconhecimento é emocionante, sabe?

Qual o momento de reconhecimento que lhe marcou mais?

Minha filha agora há pouco tempo fez uma viagem com a sogra dela, na Itália, de repente viu uma uma loja toda com roupa de Marie Mercié na vitrine, é um cliente multimarca. Isso é um orgulho. A gente exporta para Itália, para Nova York, para Boston, para o México, para o Canadá, exporta para Inglaterra…Quando a gente participa desses eventos do atacado, a gente está fidelizando os clientes, e ver isso é sinal que eles confiam na nossa produção em todo local do mundo para vender para seu próprio público.

Outra vez que me marcou foi na Coterie em Nova Iorque, estava na cidade um grupo do Rio, que fez uma excursão com o embaixador do Brasil e o da Câmara do Comércio, e eles fizeram questão de ir até lá para nos conhecer, como forma de incentivo para outras pessoas que estavam indo pela primeira vez. Quando o superintendente da feira global vem nos prestigiar, não é porque ele é bonzinho, é porque ele reconhece tudo que já fizemos e o peso da nossa marca e da nossa história. Eu sempre estou pensando no futuro e conquistar mais mercados.

O que a Mércia de 2025  diria para a Mércia de 1985?

Eu vou dizer que a Mércia de 1985 foi arretada. Ela não foi sozinha. Ela foi junto com a comunidade. Ela transformou uma região repleta de pobreza em um local com escola, sem mulheres ociosas, com capacitação. Eu diria que essa Mércia, mesmo com muitos medos, soube agir, foi arrojada, como uma mestre, e eu tenho muita admiração por ela. Pode parecer prepotente, mas quando acontece uma feira dessas e eu não vou, todas as pessoas perguntam e sabem da minha história.

Como é conciliar o fato de ter familiares trabalhando na empresa?


Então, eu aprendi a não falar de trabalho em casa desde muito cedo, até porque no começo tinha muito conflito de opiniões com meu marido, então fui separando. A minha filha e as minhas noras seguem isso também, parece que é um código, mas família é família, trabalho é trabalho. Inclusive, elas três são muito importantes na empresa, minha filha Marisa é designer, ela cria, tenho muito orgulho de falar que ela é diplomada em moda. Acho que influenciei, mas nunca forcei. Minhas noras são espetaculares, Priscila cuida do financeiro e Mariana é engenheira de produção, faz um controle de qualidade de ponta. Nunca tivemos problemas por ser família, elas são impecáveis cada uma em sua área, não tem competição.

Como entende a fidelidade dos funcionários?

A minha gestão sempre foi transparente, eu comecei lá, com as meninas, a mão na massa, na minha casa. Nunca foi algo visto apenas de cima, não acredito em uma gestão que não divide, não ensina, se eu me for hoje, tudo continua andando, porque foi passado. Outro segredo é o investimento, por muitos anos, o dinheiro da fábrica ia para a fábrica, curso, consultoria, escola, os funcionários precisam saber que a empresa acredita neles. Sei o peso disso porque foi o que mudou minha vida quando acreditaram em mim.

A primeira marca de corte a laser, no Brasil, está na Marie, eu comprei em Barcelona, peguei o dinheiro que havia juntado, uma máquina muito moderna. Arrumei alguém para me traduzir e falei pro dono: só compro se alguém for na fábrica dar um curso para minhas meninas, e assim foi feito. Hoje em dia, tenho muitas agendas fora da cidade, mas estou sempre lá, todos sabem que nos importamos com o conhecimento. Naquela região, não tem mais dona de casa, as mulheres são empregadas, estudam, isso acredito que gera fidelidade também.

Qual foi o maior desafio que você teve na sua carreira?

O desafio histórico, o machismo. As minhas produções foram reconhecidas, minha primeira Fenit, em São Paulo, precisei colocar a placa de peças esgotadas. Na minha primeira feira internacional, também fechei encomendas, o desafio era a sociedade. Inclusive, nessa da Alemanha, minha mãe foi, pois eu, mãe de três crianças, não poderia ir.

Tive muitos empecilhos que poderiam ser evitados com outras formas de pensamento. Mas hoje em dia, acho que foram importantes, até para a educação dos meus filhos e netos. Meus meninos, hoje ja homens, cresceram sabendo que mulher trabalharia sim, já Marisa, minha filha, não teve limites para estudar fora, fazer cursos e acreditar nela mesma.

A Marie Mercie vende diretamente para varejo e também para multimarcas?

Sim, além das exportações para vários países, temos lojas diretamente para o nosso consumidor. Aqui em Recife, nos shoppings Recife e Riomar, também no Morumbi Shopping e mais algumas de outlet. Um detalhe que gosto de frisar, no outlet não vendemos nada quebrado, nem mal feito, essas peças sequer saem da fábrica. O outlet vendemos peças produzidas em grande quantidade, quando passa sua coleção.

Uma paixão sua que não seja moda?

Minha família e meus amigos, são poucos mas estão comigo a vida toda. Sem eles não chegaria em lugar nenhum.

Qual o local mais lindo que já visitou?

Pangauá, minha casa, na fazenda.

Qual o seu restaurante preferido?


O Pobre Juan no Riomar.

Você torce por algum time de futebol?

Eu e meu marido, apesar de não ter o costume de ir muito em estádio, torciam pelo Náutico, mas meus netos foram nascendo, crescendo, todos Sport, então hoje em dia sou Sport.


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