Todo o ritmo e a ciranda de Lia de Itamaracá
A Coluna João Alberto terá entrevistas semanais com personalidades de destaque da sociedade pernambucana todas as segundas-feiras

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Maria Madalena Correa do Nascimento, conhecida como Lia de Itamaracá tem 81 anos. Começou a carreira em 1977 quando gravou o LP “Rainha da Ciranda”, mas já antes disso, costumava cantar cirandas no Bar Sargaço, em Itamaracá, cidade que carrega no sobrenome artístico e onde vive até hoje. U
ma das principais representantes da cultura popular pernambucana, a artista coleciona títulos importantes, como o de Patrimônio Vivo da Cultura Pernambucana.
1. Como surgiu sua paixão pela música?
Desde menina, muito novinha. Eu amava ver e ouvir os cantores na televisão e nos programas de rádio. Eu pensava assim: “Meu Deus, um dia eu quero ser cantora”. Aí eu me firmei nesse sonho, saia cantando aqui pela Ilha. Resisti nesse sonho e aconteceu. Cantar é tudo que eu mais amo nessa vida e quero continuar cantando até meus últimos dias na terra.
2. Você trabalhou como merendeira?
Olhe, eu já cozinhava antes, tanto ajudando minha mãe na casa onde ela trabalhava como empregada doméstica. Depois, passei a cozinhar lá no Bar Sargaço. Todo mundo amava minha comida. Daí, veio o chamado para cozinhar na Escola de Jaguaribe. Eu amava cozinhar pras crianças. Era uma felicidade danada. Eu cozinhava o que eu gostava de fazer e eles adoram, até repetiam a merenda. Passei 30 anos e me aposentei como merendeira, tenho muito orgulho disso. Até hoje quando passam por mim, gritam “Lia, cadê a merenda”? É uma festa que os meus antigos alunos fazem.
3. Como foi sua infância e juventude em Itamaracá?
Minha infância não foi nada fácil. Minha mãe teve muitos filhos e a gente era muito pobre. Eu precisei ajudar minha mãe muitas vezes na casa onde ela trabalhou a vida toda. Mas, também brinquei muito. Tive uma infância muito alegre. Corria pra lá e pra cá, e o engraçado é que a ciranda já estava na minha vida. Eu me juntava com as meninas, a gente de saia longa, e ficava dançando ciranda na beira da praia.
4. Qual a sensação de ser patrimônio vivo de Pernambuco?
Eu quero todas as homenagens em vida. É o reconhecimento do meu trabalho. Foi uma sensação maravilhosa saber que me reconheceram enquanto eu estou viva. Sou muito feliz por isso.
5. O que mais gosta de fazer no tempo livre?
Eu faço o que sempre fiz a vida toda: cuidar da minha casa, cozinhar, lavar, passar, guardar. Eu sou uma dona de casa, não sou só cantora e artista não. Eu tenho minha vida normal. Saio de casa, vou ali no mercadinho, compro minhas coisas, compro meu pão todo dia quando estou aqui. Depois que cuido de tudo, saio e vou na praia respirar o ar. Sento ali com as amigas, converso um bocado e depois volto pra casa. Essa é minha vida aqui.
6. Você não teve filhos, mas espalha o amor materno?
Deus não me deu filhos da barriga. Os que eu engravidei, não nasceram. Tenho uma filha do coração: Chica, minha sobrinha que criei como filha.
7. Seu lugar preferido em Itamaracá?
Meu lugar preferido na Ilha de Itamaracá é o bairro de Jaguaribe, onde nasci, cresci, me criei e vivo até hoje.
8. Qual sua comida favorita?
Minha comida preferida é uma boa peixada, mas eu também gosto de lagosta, camarão e um bom feijão bem recheado.
9. Como foi ser homenageada do Carnaval do Recife?
Eu fiquei muito feliz por ter sido homenageada no carnaval. Lia também é do carnaval. Eu me sinto muito honrada em fazer meu trabalho da maneira que faço. Eu amo representar meu Pernambuco.
10. Qual time do coração?
Santa Cruz.
11. Mensagem para quem se inspira em você
Não desistam do que querem fazer. Se querem me seguir, me sigam, mas não desistam. Precisa ter determinação, não pode desanimar. Tem que sonhar.
12. Como enxerga no futuro da Ciranda?
Vejo pouca valorização. Estou praticamente sozinha hoje com a ciranda pelo Brasil e pelo mundo. Poderia ser muito mais aproveitado isso aí. Lia está viva hoje e não estará amanhã. Quem vai continuar amanhã?